Sexta-feira
Jan092015

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Mal sei ser eu mesma. Estou aprendendo, precariamente e sempre. Volta e meia me escapo. Meu autorretrato agora é um quadrado preto que nada tem a ver com Malevich. É um espaço negro de incertezas e de possíveis. É um véu e um além. Mal sei ser eu mesma. Daí que eu definitivamente não sei ser Charlie, uma revista que nunca li. Não sei ser nenhum de seus mortos e dos mundos que se apagaram com eles. Não sei absolutamente nada sobre ser Ahmed, policial muçulmano que morreu tentando defender os outros mortos de Charlie. Tampouco sei ser Cláudia, não posso ter a pretensão de saber suas dores e maravilhas, o que era ser mãe de quatro filhos, nem mãe eu sou, nem negra também. Jamais saberei o que é ser Amarildo, esse desaparecido que tem seu nome repetido como um mantra, uma prece, um murmúrio de águas, Amarildo, onde está Amarildo, onde está. Eu não tenho ideia da imensidão que é ser um Guarani-Kaiowá, eu não sei o que é ver meu povo sumindo em assassinatos, não sei bem nem o que é isso de "meu povo", não sei o que é perder a minha terra sagrada, eu nunca tive terra sagrada e ao mesmo tempo sempre achei que toda terra é sagrada e que vamos muito mal em relação a isso, do sagrado da terra e da vida, talvez o único sagrado que exista. Eu não sei ser um dos 191.000 mortos da Síria e me sentiria vil e arrogante se pretendesse saber. Eu me cubro com um véu diante dos 191.000 mortos. Eu não sei nem o nome de nenhum deles, nem do 1 antes dos três zeros, que agora certamente já são outros números. Cada um deles tinha um rosto, uma voz, uma vida, um nome. Não sei nenhum nome. Não posso incluí-los em minhas orações. Mas eu não rezo mesmo. Eu creio na putrefação. Na terra, no sangue seco que vira seiva, na carne que vira fruta, na grama, na árvore. Não sei se creio em algo mais. Quando tomei ayahuasca pela primeira vez e vi deuses e o tempo-espaço geográfico e kundaliní, também foi isso o que vi. Eu não sei de nada, eu não sei nem-um-nome. Você também não. Os mortos pedem que sejam desfeitas essas mesas de bar com garrafas de bebidas que secaram em zeros e uns. Os mortos pedem que cesse a frivolidade hedionda do espetáculo na arena. Os mortos pedem que se faça silêncio - ou que se faça uma festa com música, com dança, com comida, com gente, com bichos, com flores, com vida. Pedem que se interrompa a mesquinharia, a arrogância, as vaidades e leviandades intelectuais, a estupidez e a guerra em seus nomes. Pedem que possam apodrecer e retornar a ser vida em paz e ebulição. Pedem memória, pedem lembranças e homenagens, pedem também algum esquecimento. Pedem respeito. Os mortos falam, escuta.

Quarta-feira
Dez072011

Onze por cento

Onze por cento de energia é o que ainda te resta. Onze, dez mais um: seria ótimo se fosse a nota da tua prova no colégio, nota dez mais um ponto extra. Mas no resto da tua vida todinha não vai ser assim, não vai ter nota dez e ponto extra muito menos, vai ser sempre a busca atrás da procura e o tempo indo embora, gostinho de chiclete murcho com álcool e desespero. O onze por cento já virou nove, e nove ainda seria uma nota muito boa, ainda um A. Mas não tem A nem B nem C, quem dera o D ou mesmo o E, é só areia escorrendo até o Z. Teu tempo já era, meu irmão. Se te dizem: só te resta nove por cento da tua vida, o que fazer? E se não tens nem quarenta anos, calcula, vai. É pouco. O suficiente pra passar dos quarenta, e só. Talvez. Talvez só.

Sete por cento, daqui a pouco hiberna, desliga, apaga. Hora de parar.

Quarta-feira
Nov232011

Garota

Corria todo dia de manhã. Depois tomava banho de chuveiro bem quente, calçava chinelinhos brancos com cristais e roupão azul sabão em pó e olhava duas, três, quatro revistas. Encantava-se com as roupas dos desfiles, tantas dobras e texturas, e os sapatos que chegavam a dar aflição, as moças lindas, quase tão magras quanto ela, as receitas de viagens, sobremesas e homens perfeitos. Revistas, tão boas.

Fazia as unhas e os cabelos com a senhora que ia na sua casa três vezes por semana. A senhora só a chamava de senhora, embora a senhora tivesse bem uns cinquenta anos e ela estivesse na glória de seus vinte e três muito bem cuidados.

Gostava de tons pastéis e espumante com suco de pêssego. Também adorava piscinas - e uma festinha de vez em quando, mas sem exageros. Era comedida em tudo, porque isso era mais chique. E tinha uma coleção de bolsas invejável. Invejável, não: invejada, todas as amigas invejavam!

Um dia não voltou do banho de chuveiro bem quente. Não foi acidente, crime ou doença. Os chinelinhos, o roupão, as bolsas novinhas e as revistas não lidas ficaram muito tristes.



Quarta-feira
Nov232011

O Outro - I

Encolho-me no canto do cômodo, da cadeira, do chão, não sei se quarto, sala, pequeno ou grande. Esforço-me para entender tempo e tamanho naquele espaço, mas nada me ocorre, só confusão, um desalento de não saber nem mais o que é saber algo.  A coisas que passam pela cabeça não chegam a formar pensamentos ou ideias ou arremedos, são apenas coisas, que escorregam, se esvaziam, se evadem. Fiapos de coisas. Um pedaço de coisa pré-existe ali, em indefinição, abandono, um vácuo triste, triste…

Dou uma risada sem porque, sem porque algum. Só uma risada, o sem sentido em estado bruto. A margem da loucura passou por aqui faz tempo – e nem percebi. Já estava lá fora.

Sono sem sonhos, deslembranças.

Depois tudo de novo, outro dia. A noite na viela, nem subimos tanto. Mas fedia muito, esgoto descia sem parar, fininho, mas o cheiro era grosso demais. E pular aquele muro de pedras enormes, com pé manco - só rindo. De dia já era tudo imenso e solto, aquela praia devia ser o mundo todo e eu não sabia, asfalto, areia, pedrinhas de calçadão, uma diferente da outra, cara feia das pessoas, desaprovação, bu, quem tem medo do lobo mau? Sou um moleque, desses sem pai mãe ou casa. Sou um nada que todos olham fingindo não ver.  Sou o que anda sem vontade, nenhum tempo me pertence, é certo que não há amanhã, sobrevivo em cada pegada. A menina perdeu o lenço roxo que brilhava todinho, que lenço mesmo? Dos males o menor, vão-se os lenços, ficam os ventos. Espana tudo, espana!

Cadê o cachimbo?

Saci Pererê levou pro mar, pro fundo do mar, pros braços de Iemanjá. Sorte sua que tá aqui ainda, anjo torto da cicatriz te ajudou. Bate três vezes na madeira, toc, toc, TOC!

Dorme, dorme. E vê se acorda. Não cata o cachimbo não. Vai, não olha pra trás. Não olha, não olha com esse olho que te sobrou na mão.



Quarta-feira
Out062010

Lá, onde suspeitam que existe, mas não ousam chegar. 

 Lá, onde um espaço vazio intercepta o excesso e afasta o agora. Lá, onde o aqui se

                                                                                                    Dá.