Na arte, nos sons e na primeira pessoa:

Sob as mais diversas formas, a música esteve no centro do que eu fazia na maior parte da minha vida, mas outras formas de lidar com os sons, as palavras e a performance sempre estiveram presentes. Muitas idéias existiram durante anos apenas como anotações rabiscadas em cadernos.

Há tempos imaginava e concebia projetos que pareciam de difícil concretização. Atlântica é um exemplo: em 2000, existia apenas como ideia motivada pelo avesso agônico às festividades dos quinhentos anos de colonização do Brasil - e como uma música que fiz ainda com o inhumanoids!, um sombrio electro-funk-samba. Só em 2009 as possibilidades de realização de Atlântica começaram a se delinear; e só em 2011 aconteceu a apresentação de seu primeiro movimento.

Voz del Fuego e Dziga Vertov, Arte Sonora, Parque Lage, 2009.

O processo  envolveu a participação nas primeiras oficinas de circuit bending realizadas por aqui, com Cristiano Rosa/Pan&Tone, no Plano B Lapa; e na primeira oficina de arte sonora com Franz Manata e Saulo Laudares na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Em meio a novos estímulos, também surgiram novos projetos - e a retomada de antigas ideias.

Ao fim do workshop de arte sonora foi realizado um happening, no qual me apresentei com o Dziga Vertov e o Voz del Fuego, e participei da exposição com alguns trabalhos individuis e um colaborativo, As Três Torres, com Alexandre Mandarino.

As Três Torres - Arte Sonora, 2009, Parque Lage.

Ao final de 2009 havia participado de uma oficina de projetos com Antoní Muntadas; de aulas como ouvinte, com Ricardo Basbaum;  e do grupo de pesquisa Arquivar, todos na UERJ. Em 2010 ingressei no Mestrado em Artes da mesma instituição, sob orientação da Profa. Dra. Leila Danziger, além de participar de outros cursos e oficinas na EAV do Parque Lage. Alguns caminhos começaram a ser melhor delineados e projetos concretizados; o foco passou das questões sonoras à pluralidade dos sentidos e suas relações com a voz, a fala, a escrita, a ficção, a imaginação. Parte desse caminho é o que busco mostrar aqui.


Cortina de Ruínas Leves - Centro Cultural Parque das Ruínas, 2010.

 

"Geni", primeira experiência/protótipo para projeto de "Os que Não Dançam Conforme a Música" - Plano B Lapa, 2011__________________________________________________________________________________________________________________________

 

Sobre o primeiro workshop de Arte Sonora no Rio e o happening na EAV:

"No dia 17 de Julho de julho de 2009 aconteceu na Escola de Artes Visuais do Parque Lage a exposição ARTE SONORA, como resultado do workshop organizado pelos artistas Franz Manata e Saulo Laudares.

De caráter pioneiro, na escola e no Brasil, o curso possibilitou uma visada sobre a construção do pensamento e da produção sonora no Século XX. Apesar de ser um fenômeno recente, pois se insere definitivamente como um campo sensível da arte contemporânea a partir dos anos 1990, a arte sonora foi abordada nos seus primórdios com os Futuristas e Dadaístas, passando pelo desenvolvimento da tecnologia como suporte para criação, abordando o legado da música eletroacústica e suas reverberações nas produções conceituais do pós-guerra, até chegar à relação desenvolvida entre arte e música no Brasil.

“Estávamos interessados em organizar, sistematizar e disponibilizar nossas fontes de pesquisa que acumulamos ao longo dos últimos 10 anos”.

A abordagem dos encontros teve um caráter interativo e multimídia – os artistas apresentavam textos, imagens, áudio e vídeo em um ambiente “imersivo capitaneado pela música”. Segundo os autores: “esse curso só poderia acontecer, em sua integralidade, no contexto atual da Era da Economia da Informação com as ferramentas dos sites de compartilhamento e busca de áudio e vídeo”.

A idéia central do workshop era propiciar um ambiente para o desenvolvimento dos trabalhos dos artistas a partir das informações fornecidas e, ao final dos encontros, apresentar a produção. “Nossa grata surpresa foi perceber o envolvimento do grupo e a construção consistente de cada poética”.

A mostra teve o caráter de um happening - uma exposição de um dia - tom objetos sonoros, instalações, performances, dj sets e shows de música experimental e eletrônica evocando o universo criativo e comportamental em que as obras foram produzidas.

A exposição contou com apoio do NAT (Núcleo de Arte e Tecnologia) e da Direção da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, mas só foi possível graças ao envolvimento de todos os artistas participantes."


Fotos: 1- Alexandre Mandarino; 2 - Alexandre Mandarino; 3 - Alexandre Mandarino; 4 - Leandra Lambert.