Sábado
Abr262008

Mais uma vez

Dorme

A noiva da velocidade

Tece tranças

Para o resgate

Fios desencapados

Labirinto

Mais uma vez

Prometeu

Morder o bicho

Que rói a maçã

Arrancar-lhe de dentro

Veneno e encanto

Mais uma vez

Prometeu

Quebra, fenda, fissura

Asa líquida

Sobre a cidade acesa

Da princesa

Paranóia

O relógio toca outra marcha nupcial, de cravos e ruído branco. Na alegria e no abismo, no fogo e no riso, no espelho de agulhas, no baile das navalhas

O último beijo agudo

Que me despertaria

No esquife

Cilíndrico

De cristal

Dorme

A noiva da velocidade

Era uma vez.

Sexta-feira
Abr252008

Alma Liber

Tem gosto de sal e noite

Voz de luz e conhaque

Andar de gueixa bêbada

E a face de um serafim quebrado

Dança feito fadas e putas

Late com pastores alemães

E mia com gatos pretos

Em dias de lua vazia

Desiste antes de começar

Porque tudo decai e termina

Não vê porque estragar a beleza

Nesse mundo “real”

Além do bem e do mal

Livre para si

Segue sorrindo

Na coerência limpa

Da lógica dos sonhos

Sexta-feira
Abr252008

Sete oitavas


Olhei para o céu e vi

Um fuso-horário despencar

O relógio no anti-horário

Marcou seis horas

E sessenta e seis minutos

Veja só que anti-tudo

Que atitude estranha a destes tempos

Mas foi bonito a eternidade

Por um segundo e

Três quartos da Terra são água

Três quartos fechados

Cinco sextos eu não sei

Só sei dos cestos de maçãs

Sete oitavos são minhas meias

Presas por cinta-liga

Ando meio desligada

Sinto muito

E um pouco mais

Sete oitavas de distância

Entre nós, atados

Nove décimos andares

Pra gente despencar

Como um fuso-horário

E me faz mal

Mas se acalme

O tempo voltou

Vamos voltar

Em outro compasso

O fim do mundo

Nunca vai chegar

Aos confins do mundo:

Não há tempo.

Sexta-feira
Abr252008

Atravessada

Imensa Porosa Desfocada

Olhos grávidos

De árvores distendidas

Um fantasma ígneo

Lambe as costas manchadas

É um muro de heras

Com luzes rabiscadas

Duas velas foram acesas

E depois fumadas

Algo novo aconteceu

Finalmente algo novo

E tudo está

Na mesma, tudo está

Em frente à casa dos cegos

O sinal apita

É verde para os que vêem

Eu mal escuto

Não atravesso

Mal escuto

Minha música está alta

E atravessada

Eu fora do tempo

Eu em nenhum lugar

Imensa Porosa Desfocada

E atravessada

Pelas dez mil flechas

Que foram acesas

E nunca apagadas.

Quarta-feira
Jul252007

Duas Letras

Não, não é C e U. São duas letras de músicas que tocamos ao vivo faz tempo mas ainda não foram gravadas. Essas estão rolando em versão rock, nada eletrônico. "Não tem Problema" é quebrada e esquisita, o povo estranha e volta e meia não tocamos, mas tem três fãs: Lois Lancaster, minha amiga Carol e eu mesma. Deve ter mais alguns. Nos últimos shows, em Juiz de Fora e em Niterói, ela até rendeu muito bem. Em pistas, como Dama de Ferro e Vegas, nem pensar em levar, né... mas não tem problema!

Não Tem Problema

(letra: Leandra Lambert / música: Leandra Lambert, Flávia Oliveira, Flávia Couri, André Delavy)

Atravessa a rua e tropeça
Veste a roupa e rasga
Mas não tem problema
Roupa e rua eram erradas


Dirige um carro e atropela pássaros
Vende na feira suas jóias raras
Mas não tem problema
As jóias eram falsas
E os pássaros eram

Pombos sem asas


Grita o que deve calar
E cala o que deve dizer
Mas não tem problema
Ninguém entende de qualquer jeito.


Dá um tiro pela culatra
E não se mata
Mas não tem problema
Tudo tem um fim


Ela se sente a errada
Obsoleta e mal-tratada
Incompreendida, obcecada
Nesse mundo de acerto, sucesso,
prozac e felicidade
comprados com
facilidade
Por poucos?!
Por ninguém, ninguém, meu bem...


Nesse grande leilão de acertos
Incertos e insossos
Ninguém acerta, meu bem...
Aceita o drama
E abraça o erro
Que te cai bem
Que te cai bem, meu bem...

Gasta

(letra: Leandra Lambert / música: Leandra Lambert, Flávia Oliveira, Flávia Couri, André Delavy)


Eu já nem sei mais
O que você
Pode querer
Disso que já foi
E já não é
Disso que eu
Nem quis dizer
Em palavra
Tão gasta:
“Amor”

Que se faz ator
De rimas fáceis
E crenças úteis
Ensina as artes
Da dissolução
Faz o “sim”
Em “não”

Faz de mim a pedra
Que se derrama em sangue
Faz de mim a Fedra
Que se derrama em lágrimas
Essas tais lágrimas
Que dizem ser:
“Passado”.
Essas tais lástimas
Que dizem ser:
“Tristeza”.
Essa tal verdade
Que dizem ser:
“Bobagem”.


Palavra tão gasta
E eu já tão gasta
“Amor”.