CUT-UP TRAGEDY (series)

Cut-up Tragedy é música, arte, escrita, interferência, acaso, rua e ruído. É um conceito-método-processo que experimenta, transforma e gera matérias sonoras, imagens, palavras, amálgamas de fragmentos.

É spoken & written word, noise e silêncio, o texto encontrado em uma cidade deslocado para outra. A voz como corpo que se distende no espaço, o texto como extensão de mãos que tatuam as cidades.

Também não é nada disso. E pode ser algo mais.

As ruas de cada cidade falam: não só através das vozes de seus habitantes e dos ruídos de seus trânsitos e movimentos, mas também através dos escritos que são tatuados em seus muros, placas e calçadas, das cenas vividas e testemunhadas, da história e da memória marcada ou apagada em sua arquitetura e urbanismo, do subtexto presente em seus hábitos e códigos de convivência. Investigo e exploro a riqueza e as ruínas de cada lugar - e as diferenças, semelhanças e dissonâncias entre os lugares, através da prática de derivas. Da observação e experiência desses aspectos caminhando por diferentes bairros e cidades, desenvolvi um conceito-processo-método que chamei de "cut-up tragedy", aplicável a diferentes contextos urbanos. Sua realização depende dessas livres caminhadas por diferentes locais, em um estado de crescente sensibilização e desregramento dos sentidos, de abertura poética às sutilezas e violências de cada ambiente, percebendo os vestígios de corpos que passam, cortes no espaço-tempo, a experiência de um tempo filosófico trágico. 

O processo empresta nome ao projeto musical. Também virou livro, Cut-up Tragedy I. A primeira performance sonora  Cut-up Tragedy foi  Déambulations Soniques - Lost in android translation, na exposição Déambulations Poétiques, no CP5 Curry VavartLe Shakirail, Paris. Como intervenção visual e poética não-musical no espaço, a série de trabalhos What I heat fez parte da exposição Braises d'aujourd'hui, que reuniu por cerca de um mês artistas brasileiros e europeus em trabalhos que dialogavam entre si, em julho de 2015 no Confluences, em Paris, França. A segunda performance sonora foi Cut-down mask, realizada meses depois no evento Fábrica Aberta, que acontece anualmente na Bhering, paralelamente à ArtRio Fair, Rio de Janeiro, Brasil. Fotografias e textos de NYC, Barcelona e Paris estiveram como Open cut no mesmo evento. A fotografia Mas Paz integrou a coletiva do Projecto Multiplo, em Havana, Cuba.

A primeira composição musical realizada utilizando esse método-processo foi Occe Anna Tlant X Cities, na qual empreguei elementos sonoros, textuais e narrativas poéticas a partir de cenas e imagens vistas nas ruas de Manhattan, do Brooklyn e de Copacabana (Rio de Janeiro, Brasil), estabelecendo também uma relação poética com o Oceano Atlântico. 

A composição-performance musical é realizada tendo como base gravações de campo feitas nessas caminhadas e derivas. Tais gravações são editadas, processadas e reprocessadas até o ponto de gerarem drones e um "wall of noise". A voz é improvisada e processada ao vivo, lendo ou cantando em diversas línguas e em glossolalias laicas - muitas vezes usando traduções automáticas que geram erros insólitos então incorporados ao texto original. Dou voz à mistura de fragmentos textuais encontrados pelas ruas, compondo meu próprio texto com alguns roubos, autorias múltiplas e irrastreáveis. As vozes se juntam a gravações de campo de diferentes cidades. Essas gravações são alteradas e outras camadas se somam ao vivo: improvisos de voz passando por loopers e efeitos que podem multiplicar uma voz feminina em muitas - ou torná-la masculina, ou ainda indefinível. O texto é composto, em parte, usando a técnica do cut-up: montado com palavras encontradas em muros, jornais, calçadas. Os textos também são compostos muitas vezes como fabulações poéticas em torno de uma breve cena vista/ouvida/gravada/fotografada em uma cidade, tendo também como referência os flâneurs e caminhantes de outras épocas, assim como os viajantes e imaginadores de cidades: Baudelaire, o Rimbaud das Iluminações, Benjamin e suas Passagens, Cervantes, Borges e Cortázar, João do Rio, Débord, As Cidades Invisíveis de Calvino, Burroughs e suas Interzonas e cidades da noite vermelha. Todo o equipamento é portátil, cabendo em uma mochila, em sintonia com o conceito nômade do projeto-processo.

Importa notar que as experiências de andar livremente pelas cidades e escrever suas impressões sobre elas costumam vir majoritariamente de homens: a circulação das mulheres é historicamente regulada, em diferentes graus restrita a espaços "seguros" e "domésticos". De fato, pode ser perigoso caminhar sozinha pelas cidades, especialmente à noite: assim como pode ser perigoso co-habitar com um agressor familiar. Qual é a ameaça, o espaço ou o agressor? Porque se regula o espaço, não o agressor? O que se pretende regular, controlar e submeter é, mais uma vez, o corpo feminino e a amplitude da experiência das mulheres. A questão da mobilidade relacionada ao gênero é também uma questão política: "Gendered allocation of space, however, has a sweeping relevance and the desire to limit women's space is not peculiar to one culture or another. Sanctified by notions of beauty, desirability, safety, morality, or religion, many cultures have restricted women's mobility." (Farzaneh MILANI, about Shirin NESHAT).