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Terça-feira
Out182011

Cidade e Desaparecimento 

Abertura da exposição coletiva na quarta, 19/10/2011, às 19h.

Local: Centro Cultural da Justiça Federal - Av. Rio Branco, 241 - Cinelândia - Rio

Exposição: de 20/10 a 27/11, nas galerias do primeiro andar.



"O desaparecimento presente nesta exposição não implica uma retirada qualquer, tampouco sugere um lamento nostálgico em prol de uma cidade idealizada. Nas obras aqui reunidas, observa-se um vivo interesse pela cidade tal qual ela se apresenta, repleta de desafios, que a arte, e apenas ela - compreendida como poderosa tecnologia de apropriação, registro e transformação afetiva de signos pré-existentes – é capaz de enfrentar.

Lugar de saberes diversos, máquina de visão e de enunciação, a cidade subordina seus sujeitos aos modos de vida previstos pela ordem do capitalismo pós-industrial, mas ela também admite processos imprevistos de subjetivação. A possibilidade de encontrar essas brechas e imprevisibilidades é a aposta dos trabalhos apresentados em Cidade e Desaparecimento. Nesta exposição, a cidade é vivida como um laboratório de atritos produtivos, geografia e paisagem, história e memória, experiências radicais de sociabilidade urbana.

Com efeito, a cidade deixa marcas nos corpos dos indivíduos, constituindo suas percepções genéricas, suas ações familiares, não fossem os investimentos em outros modos de ver e agir do poeta urbano. As imagens da série Peles de Mariana Katona apresentam outras marcas, aquelas produzidas pelos gestos corriqueiros, mas singulares de abaixar e pressionar o corpo nas reentrâncias dos monumentos e das calçadas, dando origem a um delicado e efêmero palimpsesto em registros fotográficos.

São outras visibilidades que se produzem na exposição Cidade e desaparecimento. Nas fotografias de Cristiano Lopes, Janela Indiscreta, a observação da cidade, enquadrada nos vidros de textura canelada, mostra-se ávida por estímulos sensoriais intensos, afirmando um olhar vouyeristíco e corpóreo. Em Quando o céu vir a mar, Daniela Seixas eleva nosso olhar, ansioso de estabilidade, em direção às nuvens. Seu monitor de televisão, instalado sobre a porta da galeria, nos oferece uma paisagem aérea e liquefeita, atualizando o desafio de séculos da pintura, bem como aquela incerteza do mundo encontrada em certas imagens de Guignard. É nesse diálogo com a pintura que investe ainda Isabel Carneiro ao mostrar, em seu vídeo Borderline, os próprios passos caminhando ao longo de uma linha amarela que divide o asfalto. Ao operar uma mudança de perspectiva, e, ao mesmo tempo, repetir o título do trabalho (dito em um tom de voz que parece emanar do pensamento), o vídeo sugere interessante estado de alteração perceptiva e emocional.

Nas fotografias de Adelaine Evaristo, Paisagem Cortante, os muros de cacos de vidro – artesanato bélico desenvolvido para proteger propriedades – convertem-se na lente pela qual vemos a cidade. Ameaçadores e íntimos, os estilhaços em suas imagens aproximam-se de uma possível experiência do sublime urbano. Se as fotos de Adelaine sugerem a tentativa de por-se ao abrigo da violência, no levantamento gráfico empreendido por Juliana Franklin, Perícia, a violência extrema irrompe na intimidade das casas. A artista nos apresenta vasta coleção de marcas de tiros, entre os quais a vida insiste e resiste. Seu trabalho parte de um intenso envolvimento em comunidades tais como Maré, Fallet, Alemão, Santa Marta, entre outras.

A experiência cartográfica absorve a imaginação de alguns dos artistas dessa exposição. Dirigindo nosso olhar ao asfalto, com Infiltração, Marina Fraga remete à potência poética dos mapas, descrevendo veios e rachaduras em suas paisagens fluviais realizadas a partir do registro do desgaste entrópico das nossas ruínas urbanas. Apostando na escuta da cidade, Leandra Lambert constrói uma geografia sonora carregada de signos e sedimentos. Acumulando as camadas da cidade e o atrito do mundo, Cidade apagada é um poema sonoro que acredita na descontinuidade produtiva entre os sentidos da visão e da audição.

Outra ciência é ainda absorvida por Jacqueline Siano de maneira singular, ao apresentar uma paisagem antropológica com seu vídeo instalado numa vitrine. Sobre ilhas e pontes articula um olhar crítico sobre os modos de expor que a Modernidade inventou para os saberes diversos, incluindo os da Arte.O humor sutil surge em São Sebastião, de Valéria Medeiros. Seu vídeo mostra uma delicada “escavação”, uma espécie de “pintura às avessas”, em que a artista retira pó de grafite com um pincel e, lentamente, faz surgir a imagem do santo padroeiro. Deste modo, São Sebastião não surge dos céus, mas do “baixo”, do informe, e, apesar do esforço da artista, retém impurezas e resíduos.

Estes trabalhos foram produzidos em uma série de encontros realizados ao longo de dois anos, em que foi discutido o tema título desta exposição, num processo de apresentações, discussões, debates e algumas leituras. Em Cidade e Desaparecimento, o Projeto Arquivar – laboratório de experiências artísticas do PPGARTES/ UERJ – tem a alegria de apresentar parte do resultado das pesquisas desenvolvidas no grupo."

Luiz Cláudio da Costa e Leila Danziger