Atlântica - série em processo desde 2009

 

ATLÂNTICA é um projeto antigo que tornou-se  uma obscura música em 2000 e depois adormeceu informe por nove anos. Acordou entre o barulho do mar e dos motores e vem se desdobrando e proliferando, feita de ar e espuma poluída, grãos e castelos de areia, torres e garrafas de vidro, rostos, vozes e movimentos. Faz-se na precariedade, na ruína em festa, em ruídos e riscos, nas tentativas de silêncio, no absurdo e na exuberância frágil dos anti-monumentos. Existe na escuta-caminhada, nos corpos-mapas, no percurso e no relato do Oceano, da Mata, da Avenida.

ATLÂNTICA quer ser ouvida na pele.

 <Um primeiro movimento de Atlântica>

 

Atlântica – um relato.

 

       Já realizei algumas vezes neste ano o que venho chamando de derivas sonoras. Saio de casa, a dois quarteirões da Avenida Atlântica, portando um pequeno gravador com microfones acoplados “camuflado” em uma mochila. Não há caminho certo: o território é a Avenida, mas nunca sei bem aonde irei de fato, por quanto tempo ficarei andando, se vou parar em alguns lugares, se seguirei alguém, se vou puxar conversa com uma pessoa que me deixa mais curiosa, emocionada, com vontade de um contato maior. Vou me guiando mais pelos sons que escuto e despertam meu interesse do que por qualquer outro estímulo. Isso cria um percurso um tanto caótico e errante, que foge à lógica, à pressa, à linha reta. Já andei em círculos e dei meias-voltas para seguir pessoas e seus sons. Algumas vezes, por esquecimento ou alguma questão técnica, o gravador não estava gravando – mas vivi uma experiência que depois se transforma e se junta a um gigantesco mapa em mutação. Sem o arquivo sonoro, busco outros meios de construção, ínfimos blocos afetivos: pequenos objetos, restos, frutos de coletas, imagens e relatos como este. O som passa por muitos lugares aparentemente silenciosos.

 

Visualmente, muitas vezes é incompreensível o que estou fazendo, parece totalmente despropositado; só pela escuta se acha o fio de Ariádne desses invisíveis labirintos aéreos de percursos-relatos. O Minotauro de Cortázar pode vagar pelos labirintos de sentidos de Borges.

 

          A percepção concentrada no som faz com que todos os outros sentidos tornem-se mais porosos, desfocados, misturados e abertos a multiplicidades do espaço externo e à presença dos outros, com suas vozes e ruídos. A visão é um sentido que torna tudo mais objetivo, separa em ‘eu e você’ e em ‘sujeito e objeto’; quando a audição comanda, não há tanto comando nem divisão entre interior e exterior – há um lado de fora que atinge e aproxima.  O som se propaga pelo ar, pela água, passa barreiras, atravessa brechas, se espalha todo, navega interstícios – e a minha própria percepção parece adquirir estas características, perdendo um tanto do foco perspectivo visual. Começo a imaginar como seria uma caminhada guiada pelo olfato, outro sentido um tanto aéreo que certamente me levaria a derivas semelhantes. Decido que os cheiros também farão parte dos trajetos-relatos. Engarrafar cheiros em vidros escuros. Ouvir e fabular fragmentos de conversas insólitas, mares em ressaca, línguas negras, glossolalia de embriagados, monumentos da dissipação. Compor suas relações casuais e aleatórias em uma narrativa multi-sensorial, um mosaico orgânico, labirinto que se abre em polvo.

 

O som é sentido na pele do tímpano e na concha noturna do ouvido, mas não só neles: é sentido também em toda a pele, em todo o corpo. Múltiplos sentidos. Isso torna o ouvinte atento um ser que é mesmo todo ouvidos. Os ouvidos não têm pálpebras, os poros também não. Corpo-limiar caminhando as pedras, corpo-concha navegando a areia, corpoceano. Ouvidos e pele são permeáveis ao mundo externo, ao lado de fora, ao outro, aos ruídos, afetos, atritos e arranhões. Correr o risco, na pele: o mundo como campo de forças. Não há mais anestesia. A superfície cartográfica é funda, terrena, porosa. Marcas de dermografismos ruidosos, mapas voláteis que gritam texturas vermelhas.*

 

 

                                                                                                     Leandra Lambert, Julho de 2010.

 

  * Dermografismo - Síndrome, de causas incertas, que provoca grafismos vermelhos em peles hipersensíveis; às vezes são extremamente exasperantes; outras vezes somem, chegam a deixar saudades. Além disso, a doença não tem maiores consequências; tampouco cura. Podem ser considerados tatuagens naturais intermitentes e indesejadas.

 

 

 Imagens e textos: Leandra Lambert.