Resistência é uma palavra boa - Leandra Lambert

Aldeia Maracanã e Palanka - Leandra Lambert e Alexandur Raevschi

Don’t yearn, anyway we will be together - Alexandur Raevschi

O trabalho Resistência é uma palavra boa surgiu inicialmente como parte de um processo colaborativo entre dezenas de artistas que resultou na exposição Dupla-Boca / Double-Mouth, realizada no Rio de Janeiro e em Bergen, Noruega. A exposição aconteceu nos dois países entre março e junho de 2013 e foi resultado do curso "Voz, texto e coletividade", ministrado por Ricardo Basbaum e Brandon LaBelle (Instituto de Artes da UERJ + Bergen Academy of Arts and Design). Neste trabalho, foram realizadas duas diferentes instalações para as duas exposições. Em ambas, para ver o vídeo em pequeno formato, a pessoa deveria entrar em um local escuro e se concentrar nos sons: em Bergen, uma sala-caixa de papelão; no Rio, um pano de lambe-lambe.

Os trabalhos surgiram de conversas e trocas de ideias e experiências entre os dois artistas, mas sustentam-se separadamente como trabalhos autônomos.

Instalação na Galeria Candido Portinari, Rio. Para ver o vídeo era necessário entrar debaixo do pano preto, ficar no escuro

Aldeia Maracanã e Palanka 

Uma aldeia urbana que reuniu índigenas de diversas etnias no Rio de Janeiro, Brasil. Uma vila que vive o êxodo dos jovens na Moldova, antiga União Soviética. Dois ambientes dos mais diversos foram reunidos por uma semelhança: a ameça do desaparecimento. Seus costumes, músicas e vozes não se encaixam docilmente na dinâmica do capitalismo tardio. Palanka é uma pequena vila, da qual os jovens se retiram, diante da falta de perspectivas. Esvaziam suas terras de origem, deixando uma população mais velha com suas memórias. Na Aldeia Maracanã, um pequeno espaço de forte significado simbólico, os indígenas, habitantes originais de toda a terra do Brasil, prucuraram resistir às tentativas de expulsão. A intenção era restaurar o espaço e oficializá-lo como um centro cultural indígena e instaurar a primeira Universidade Indígena do Brasil. No entanto, o governo preferiu contemplar interesses mais vinculados à lógica do capital. Em março de 2013 - após a realização deste trabalho - a expulsão foi executada, de forma truculenta, pelo batalhão de choque da polícia militar. Prisões injustificadas, indígenas e manifestantes de todas as idades feridos e intoxicados pelo uso indiscriminado de bombas de gás lacrimogêneo, armas de choque, balas de borracha, cacetetes e sprays de pimenta marcaram esse episódio desastroso e vergonhoso. Foram usadas armas sônicas pela primeira vez no país.

Cada uma dessas culturas procurou - e procura - resistir.  Ser ouvido pode ajudar a resistir. Ser visto pode ajudar a não desaparecer. A luta pela Aldeia Maracanã segue.

Neste trabalho, nós, Alexandur Raevschi, da Moldova, e Leandra Lambert, do Brasil, buscamos alguns sons, imagens e testemunhos da experiência desses lugares - e de pessoas, culturas e situações que os tornaram vivos. Dois vídeos foram concebidos, realizados e unidos: "Don’t yearn, anyway we will be together/ Não lamente, estaremos juntos de qualquer jeito", de Raevschi, filmado em Palanka; e "Resistência é uma palavra boa/ Resistance is a good word", realizado com fotos, músicas e testemunhos gravados por Leandra na Aldeia. Nas exposições em Bergen e no Rio de Janeiro, duas diferentes instalações foram realizadas, com os vídeos, cartazes, fotos e textos. Neste trabalho desenha-se uma tênue linha entre resistência e desaparecimento.

Resistência é uma palavra boa 

O prédio em ruínas que abrigava a Aldeia data do século XIX e teve toda sua história vinculada aos povos indígenas do Brasil:

"O prédio da Aldeia Maracanã foi um antigo casarão imperial doado pelo duque de Saxe para ser o primeiro instituto de pesquisa de cultura indígena no Brasil, e que viria a abrigar o primeiro órgão de proteção indígena em 1910, fundado pelo Marechal Rondon. Em 1953, o prédio foi transformado por Darcy Ribeiro em Museu do Índio, sendo abandonado em 1977 e doado à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em 1984. No ano de 2006 um grupo de indígenas, conscientes do valor histórico do prédio, fizeram a ocupação e criaram ali um centro cultural." (Fonte: observatório das metrópoles)

O prédio histórico e a comunidade que ali habitava foram ameçados em uma sucessão de eventos. Primeiro, o prédio seria demolido para dar lugar ao estacionamento de um shopping; depois, seria reformado para se tornar um museu de medalhas e troféus olímpicos.

Desde a confirmação da realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil, os interesses da especulação imobiliária e econômica vem encontrando um injustificável apoio do governo local. O auge da truculência havia acontecido na manhã de 12/01/2013, quando policiais armados do Batalhão de Choque da Polícia Militar cercaram o prédio. Durante o dia, dezenas de apoiadores - estudantes, artistas, ativistas, advogados, operários - entraram na Aldeia, pulando o muro que não estava sob cerco e colocando-se junto aos indígenas. Depois de algumas horas, à tarde, o Batalhão teve que se retirar. Mas as ameças continuaram, assim como o desrespeito ao povo indígena, ao cidadão carioca e à cultura e à história do país. Até que, nas primeiras horas do dia 22 de março, o batalhão de choque cercou novamente a Aldeia e, dessa vez, expulsou todos os seus habitantes.

A história segue, e a Aldeia resiste. O texto abaixo foi composto com trechos da transcrição de falas de alguns dos indígenas presentes na Aldeia Maracanã entre novembro de 2012 e fevereiro de 2013 - principalmente no dia 12-01-2013.

 

Um dos cartazes feitos com imagens e palavras da Aldeia Maracanã

"Todo nosso sustento, todo nosso fortalecimento vem da Mãe Terra."

"Casa é muito importante, todos tem que ter um kijeme, um lugar sagrado, em que a gente resiste, com a família.

"Aqui é onde a gente pode ter um trabalho da gente, vender artesanato, a gente vem pro Rio de Janeiro pra isso também. Se a gente não tiver essa casa aqui, vai ficar aonde? Se não tiver aqui a gente vai ficar na rua."

"O artesanato, a nosso cultura, é meio de sobrevivência."

"A gente vem pra cidade pra estudar - e também mostrar a nossa cultura, como é que a gente vai mostrar se só ficar na nossa aldeia, vai ensinar pra quem? Pra quem já sabe como é? A gente tem que ensinar e mostrar a cultura, a verdade, o que que é cada cultura de cada povo, que não é igual. Falam o "índio", mas não é o índio, são os povos indígenas, são 300 e poucos povos diferentes, línguas diferentes, culturas diferentes. E isso não é falado, não é discutido e isso aqui, esse espaço é pra isso, pra você mostrar sua cultura. Não tem um lugar que o povo indígena chegue e possa mostrar sua cultura. Esse lugar já era indígena, a gente tem que defender."

"Essa pressão vai continuar. Precisamos do apoio da opinião pública, nacional e internacional. Essa luta judicial é muito desgastante, é uma pressão muito grande, um terrorismo psicológico, um desgaste terrível."

"Que forças foram essas que seguraram esse espaço durante esses 40 anos de abandono? Não tem explicação, se não espiritual, essas forças espirituais. Qualquer outro patrimônio entregue a própria sorte durante quatro décadas já teria ruído, já teria caído. É uma força que não está aqui embaixo, que não é desse plano, algo muito poderoso, que segurou isso aí e não deixou cair, esperando até a gente chegar. Hoje nós somos os guardiões dos direitos primários, de forças primárias, que estão aí, muito antes dessas lutas judiciárias, que acontecem no papel. Muito antes de existir qualquer papel nós já estávamos batendo maracá." 

"Tem um grupo que está aqui que vai resistir até a morte. Eu vou ficar aqui até o final."

"Desaparecimento é uma palavra de tristeza, ninguém é feliz com essa palavra, a gente não gosta nem de falar essa palavra, desaparecimento. Ninguém quer desaparecer, ninguém quer sumir, ninguém quer acabar."

"Na minha aldeia, quando eu tinha 9, 10 anos, o lugar era uma beleza, agora já é outra. Foi muita destruição. Destruíram a beira dos rios, cortaram muitas árvores, algumas árvores são muito importantes pros rios, algumas areias, o barro que está lá, não pode tirar, ele está protegendo os rios, tem gente que vai lá e tira. Meus filhos não têm agora o que eu tive."

"Antigamente, quando saía da aldeia, não podia usar o nome indígena, não podia usar na carteira, agora já pode. Eu ainda tenho nome na carteira que não é indígena, minhas filhas já têm registro com nome indígena."

"A mulher tem que ter voz. Na reunião, foi decidido que vão ser quatro mulheres e quatro homens para nos representarem."

"O que me traz alegria é cantando e dançando. A parte que a gente mais gosta, de fortalecer a vida espiritual(...) Cantando, dançando, todo mundo reunido.(...) Tem músicas que eu não esqueci nunca, quando estou sozinho ou triste, eu sempre canto, pra poder fortalecer a minha vida espiritual, seja lá onde eu estiver, aqui na cidade grande ou dentro da minha aldeia, eu sempre canto. Tem horas que eu fujo de todo mundo, vou pra dentro da minha casa cantar, bater meu maracá, com as músicas mais antigas, que aprendi com os meus avós."

"A gente já fez trabalhos nas escolas e tem gente que não sabe nem quem é o avô. A gente sabe bisavós, tataravós, todos os nomes, as histórias, tudo. Chegar nas escolas e as crianças sem saberem nem quem é o avô... É triste pra gente. É a história dele que é apagada. Não é só com a gente."

"Quinhentos anos, não mudou nada. Falaram que mudou muito, mas... não mudou nada."

"Falta katuahí, o muito bom, para todos. É o que eu quero para todos, e é o que não tem para todos, é o que falta."

"Você estar aqui é importante, mas eu acho que o mais importante é o que você vai levar daqui. Você tem que levar, tem que fazer seu papel de brasileira. Se você é brasileira você tem algum sangue indígena, bisavós, tataravós, então tem que mostrar um pouquinho desse sangue indígena a favor dos povos indígenas, que foram massacrados por quinhentos anos."

"Que a força do grande Sol Central ilumine todos os corações, que a força do grande Sol Central transmute as energias contrárias a este povo, que a força do grande Sol Central possa tocar os corações daqueles que nos perseguem, que a força do grande Sol Central possa tocar o coração do nosso governador, o coração do nosso prefeito, o coração da nossa presidente. E que os nossos povos deixem de ser perseguidos, deixem de ser caçados como animais. Que a força do grande Sol Central possa nos fortalecer."

"Resistência é uma palavra boa. Uma palavra alegre, de sucesso, todo mundo anda atrás desse sonho."

www.vozesdaaldeia.blogspot.com.br

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Este é um trabalho não-comercializável. Se, algum dia, porventura alguma forma de remuneração advir, será majoritariamente doada a organizações indígenas e dedicadas a causas indígenas brasileiras.